ABRAHAM SHAPIRO
Era
uma indústria de peças metal-mecânicas.
O
pessoal já estava cansado dos treinamentos de moldar massinhas coloridas ou
fazer desenhos a título de melhorar o clima organizacional ou o
autoconhecimento. Liderança, então, nem se fala. Aparecia cada figura para
falar de liderança! Talvez entendessem muito de "sociologia das almas no
purgatório" ou "psicologia interplanetária aplicada", mas
liderança empresarial não era, mesmo, o forte desses personagens.
Todos
- da alta gerência ao chão de fábrica - questionavam a eficiência dessas
"coisas," só tinham nome de treinamento e estavam mais para um
retorno compulsório ao jardim de infância. A sensação constante era de que as
atividades propostas pelo RH levavam todos os participantes desde o
"nada" para "lugar nenhum".
E o orçamento? "Por quê tanto dinheiro gasto com essas bobagens?", reclamavam os gerentes que quase sempre tinham que deixar para trás algum item do planejamento anual mas continuavam vendo a "bendita" planilha de treinamentos A.N.T.A. (Amontoado Nulo de Técnicas Avulsas) sendo aprovada.
Aos
poucos, os teatrinhos, as dinâmicas de blá-blá-blá, e as seções de abraços e
beijos para melhorar o clima foram se tornando motivo de revolta e chacota
geral. Eram vistos como uma verdadeira palhaçada. O ultimato, enfim, veio da
diretoria: "ou o pessoal do RH se dedica mais às reais necessidades das
pessoas enquanto funcionários ou será melhor que se atenham a cuidar apenas da
folha de pagamento e as questões trabalhistas". Estava, portanto,
decretada a moratória de um departamento que nunca soubera exatamente qual o
seu papel dentro da organização e que, por isso, sonhava, sonhava, e acreditava
estar fazendo grandes coisas.
Certo dia, a engenharia iniciou a redação de um manual de procedimentos e padronizações das etapas operacionais da fábrica. Era o primeiro passo para um programa interno de qualidade.
Naquela ocasião, estávamos prestando o serviço de formação de uma equipe de vendas para a gerência comercial da empresa. Nossa insistência centrava-se em que todo e qualquer funcionário precisa saber "o quê" fazer, "como" fazer e "qual o padrão de eficiência" que a empresa espera dele no exercício de sua função. Dissemos que, sem isso, seria impossível existir motivação real e clima propício ao entendimento e convergência entre as pessoas. Indicamos ao diretor a alternativa de implantar um processo de comunicação e compartilhamento daquele manual de procedimentos da engenharia a todos os funcionários da fábrica. Era uma proposta que visava o envolvimento de todos numa ação que resultaria em comprometimento, engajamento geral.
Formaram-se
grupos de estudo por setores de produção e estabeleceram um cronograma. Estas
equipes passaram a ter encontros quinzenais com a engenharia. Nestes encontros,
em sala de aula, os projetos recém desenhados eram apresentados e amplamente
discutidos. Os funcionários tinham, assim, uma oportunidade ótima de opinar
sobre operações, seqüências, acabamentos, medidas, materiais de construção,
controle de qualidade etc.
Muitas idéias e inovações começaram a surgir. Após aprovação e estudo de viabilidade feitos por um comitê técnico, eram automaticamente inseridas no manual. A versão que os engenheiros julgavam finalizada na ocasião em que os encontros começaram sofreu grandes e positivas altarações graças à participação de todos. Surgiu, desta forma, a versão 2.0 - versão cujos autores eram, agora, todos os colaboradores do setor produtivo. Um verdadeiro milagre.
Estes
não foram os únicos benefícios da iniciativa colhidos pela empresa. O RH
começou a usar os novos treinamentos como meio para selecionar os funcionários
talentosos, os que mais participavam das idéias, e a incentivá-los através de
cursos externos que os aperfeiçoavam em suas atividades. Igualmente, pelo mesmo
método, eliminou os profissionais que não se interessavam em participar das
discussões e que, por isso, não se engajavam no processo em curso.
Hoje,
naquela empresa, treinamento é um meio real de desenvolvimento de pessoas e,
mais interessante, é uma forma eficaz de melhorar o negócio sob várias
perspectivas. Uma oportunidade verdadeira para todos. É, sem dúvida, o
orçamento mais bem investido de todo o planejamento anual.
Moral da história: Ilustres
profissionais de RH! Desenhos e teatrinhos podem ser muito úteis na formação
primária básica. É hora de conhecer estratégia e falar linguagem de negócios.
RH estratégico. É disso que todos precisam
Nenhum comentário:
Postar um comentário